- 31 de agosto de 2026
Laboratório Cristália apresenta projeto de vacina antitabagismo
Diferentemente dos tratamentos disponíveis, que atuam
principalmente sobre os sintomas da abstinência, a vacina tem como objetivo
estimular o sistema imune a reconhecer e capturar a nicotina ainda na corrente
sanguínea, impedindo que ela chegue ao cérebro e produza a sensação de prazer
que sustenta o vício.
A dependência química está entre os maiores problemas
de saúde pública da atualidade. As drogas alteram a química do cérebro — em
especial o chamado sistema de recompensa —, aumentando o desejo de consumir
mais e em maiores quantidades. Na ausência da substância, os níveis de
neurotransmissores caem e surge a síndrome de abstinência, acompanhada de forte
desejo de consumo para restaurar a sensação de prazer. No caso do tabaco,
a dependência química ocorre principalmente pela ação da nicotina, substância
psicoativa que chega ao cérebro poucos segundos após a inalação.
“A nicotina ativa receptores nicotínicos de
acetilcolina no cérebro, favorecendo a liberação de dopamina e ativando o
sistema de recompensa, o que gera uma sensação rápida de prazer e reforça o
consumo compulsivo. Nossa vacina foi concebida para interromper esse ciclo ao
impedir que a nicotina chegue ao cérebro em quantidade suficiente para ativar
esse mecanismo”, explica o médico Ogari Pacheco, fundador, presidente do
Conselho Diretivo do Laboratório e responsável pela concepção da ideia que
gerou o desenvolvimento do projeto.
“O tabaco é um dos piores vícios. Mata aos poucos,
em função de diversas doenças graves, como câncer, infarto e AVC, ou mesmo por
um conjunto delas. Mas é muito difícil abandonar o hábito e não ter recaídas.
Em algum momento, pensei: o corpo humano tem um sistema imunológico perfeito. E
se descobríssemos uma maneira de colocar esse sistema imunológico para combater
a adicção?”, explica Dr. Pacheco. A partir dessa ideia, em maio de 2024, foi
solicitada internamente a criação de uma plataforma antidrogas, voltada a
prospectar soluções inovadoras para combater a dependência química e
apoiar pacientes na fase de abstinência.
De acordo com estimativas da Organização Mundial da
Saúde (OMS), o tabaco causa cerca de 8 milhões de mortes por ano no mundo,
sendo aproximadamente 7 milhões por consumo direto e 1,3 milhão por exposição
passiva ao fumo. Cerca de 85% dos pacientes que tentam abandonar o vício
sofrem recaídas no primeiro ano de tratamento, e dois terços voltam a usar a
substância nas duas primeiras semanas (Fonte: National Institute on Drug
Abuse). “É justamente a recaída que a vacina do Cristália pretende
prevenir”, explica o fundador e presidente do Conselho Diretivo do Cristália.
Como a vacina antitabagismo funciona
Dr. Ogari Pacheco detalha que o tratamento de diversas
doenças já se beneficia do uso do sistema imune do próprio paciente, capaz de
reconhecer o que é estranho ao organismo e produzir anticorpos que capturam e
eliminam esse invasor. As drogas de abuso também são estranhas ao organismo,
mas, por sua estrutura química, passam despercebidas pelo sistema imune.
A vacina em desenvolvimento pelo Cristália resolve
esse ponto: a molécula da droga — pequena demais para gerar resposta
imunológica sozinha — é acoplada a uma estrutura reconhecida pelo sistema
imune. Esse complexo desencadeia a produção de anticorpos neutralizantes
capazes de se ligar especificamente à nicotina na corrente sanguínea.
Na prática, quando o paciente vacinado entra em
contato com a substância, os anticorpos a capturam ainda no sangue. Assim, a
nicotina não consegue chegar ao cérebro e, por não interagir com os receptores
nicotínicos de acetilcolina nem desencadear a liberação de dopamina associada
ao prazer, não produz o reforço que alimenta a dependência. “É importante
frisar que a molécula modificada usada na formulação não tem efeito
psicotrópico”, afirma o fundador do Cristália.
Os protótipos e antígenos sintéticos da vacina
antinicotina estão sendo produzidos para fins de pesquisa com tecnologia do
Cristália. A etapa relacionada ao Insumo Farmacêutico Ativo (IFA) está sob
responsabilidade da planta Farmoquímica Oncológica do Cristália, em Itapira,
enquanto a formulação e o envase, por se tratar de uma vacina, deverão ocorrer
em uma das unidades farmacêuticas do laboratório, também no complexo industrial
de Itapira.
Até o momento, a vacina em desenvolvimento pelo
Cristália foi testada apenas em animais. Os antígenos sintéticos produzidos
pela Farmoquímica Oncológica mostraram-se eficazes em induzir a geração de
anticorpos específicos e, em modelo experimental de desafio, a candidata
vacinal antinicotina demonstrou capacidade de impedir a adicção nos animais.
Atualmente, também está em andamento um estudo de avaliação da resposta imune
gerada pela vacina antinicotina.
O desenvolvimento ainda depende da conclusão de
estudos pré-clínicos de eficácia e segurança, desenvolvimento farmacotécnico e
analítico, aumento de escala e estudos clínicos em humanos antes de um eventual
pedido de registro à Anvisa. O Cristália também está compilando os dados
iniciais de estrutura química e eficácia para elaboração do pedido de patente.
A publicação científica dos resultados está prevista para ocorrer após o
depósito da patente.
“A vacina antitabagismo não substitui o tratamento:
ela protege a continuidade dele. Ao neutralizar o efeito prazeroso da nicotina,
a tecnologia atua exatamente onde muitos tratamentos falham, ajudando a reduzir
o risco de recaída”, finaliza Dr. Pacheco.