- 03 de fevereiro de 2026
ANVISA aprova no Brasil uso da semaglutida para redução do risco cardiovascular
A substância simula o funcionamento de um hormônio no
corpo (o GLP-1) e, originalmente, foi desenvolvida para o tratamento da
diabetes. (relembre abaixo como ela age no corpo)
De acordo com a Anvisa, o Wegovy agora é indicado para
diminuição do risco de problemas cardiovasculares, como infarto e AVC, em
adultos com doença cardiovascular estabelecida e obesidade e sobrepeso.
Indicação ampliada
Ainda segundo a agência reguladora, os estudos
apresentados mostram que, “quando acompanhada de dieta hipocalórica e
aumento da atividade física, a semaglutida reduziu significativamente a
ocorrência desses eventos”.
“Estima-se que, a cada ano, 400 mil brasileiros
morram em decorrência de infarto ou AVC”, alerta a
Anvisa.
A indicação para o uso do Ozempic também foi ampliada.
Agora, o medicamento pode ser usado no tratamento de pessoas com diabetes tipo
2 e doença renal crônica.
“De acordo com estudo apresentado pelo
fabricante, o uso do medicamento, em conjunto com a terapia padrão da doença,
reduziu de maneira relevante a progressão da insuficiência renal e as mortes
causadas por eventos cardiovasculares adversos maiores”,
justifica a Anvisa.
Semaglutida e o risco cardiovascular
Uma nova análise do estudo SELECT, o maior estudo
clínico já realizado sobre benefícios cardiovasculares da semaglutida,
publicado na revista científica “The Lancet” em 2025, havia mostrado que a
semaglutida é capaz de reduzir o risco de problemas cardíacos independentemente
da quantidade de peso perdida.
Mette Thomsen, VP sênior da área médica global
da Novo Nordisk, analisa que
há fatores além da redução do peso corporal que influenciam a proteção
cardiovascular oferecida pela semaglutida.
“Não há uma relação direta entre o grau de perda
de peso e a magnitude da redução do risco cardiovascular. Isso reforça a
hipótese – que também discutimos no artigo – de que há algo além da perda de
peso envolvido”, explica Thomsen, em entrevista ao g1.
Publicações anteriores do mesmo estudo já haviam
mostrado que o uso do medicamento resultou em uma redução de até 20% nos
eventos cardiovasculares em pacientes com obesidade e doenças cardiovasculares
estabelecidas, sem diabetes.
Mas essa é a primeira vez que se analisa que essa
redução não necessariamente está ligada à quantidade de peso perdida.
Por outro lado, a pesquisa mostrou que a redução da
circunferência abdominal, um indicador de queda no percentual de gordura
visceral, foi associada a melhores resultados para a saúde cardíaca.
Segundo Thomsen, é um primeiro passo para entender o
mecanismo por trás da diminuição do risco cardiovascular observada.
O SELECT incluiu mais de 17 mil adultos com doença
cardiovascular e índice de massa corporal (IMC) igual ou superior a 27,
comparando o uso da semaglutida com o de um placebo.
Mecanismo ainda desconhecido
Apesar de o estudo atestar a proteção cardíaca
promovida pela substância, os pesquisadores ainda não sabem ao certo qual é o
mecanismo de ação que leva a esse resultado.
A representante da Novo Nordisk explica que o SELECT é
o único com resultados sobre a saúde cardiovascular até o momento. Mas estudos
referentes a diabetes mostram que há diferenças entre os agonistas de GLP-1 – e
esse mecanismo pode ser uma propriedade exclusiva da semaglutida.
“Parece haver algo de único na semaglutida, que
vai além da perda de peso. Mas concluir algo específico sobre os outros
compostos ainda é difícil porque faltam dados para fazermos esse tipo de
análise”, analisa Thomsen.
Ela pondera ainda que, dentro do estudo, foi feita uma
avaliação sobre qual proporção de redução do risco cardiovascular pode ser
explicada pela perda de peso.
Houve uma redução média de 4% no risco a cada 5 kg
perdidos e 5 cm a menos de circunferência da cintura.
Mas, entre pacientes que perderam peso, a incidência
de eventos cardiovasculares foi semelhante, independentemente de terem reduzido
5% ou mais do peso.
Na opinião de Thomsen, os efeitos anti-inflamatórios
da substância podem estar por trás da redução do risco cardiovascular.